Tecida à custa de sexo, mentiras e subjugação, uma teia enreda, prende e escraviza garotas de programa em um esquema internacional de tráfico humano. Com a promessa de faturar milhares de euros mensalmente, modelos e influenciadoras são aliciadas e enviadas do Brasil para a Europa em uma conexão que parte do Distrito Federal e desembarca em Namur, uma pequena cidade no interior da Bélgica.
Sob o véu de um suposto profissionalismo, cafetões prometem estrutura e logística para manter as candidatas em belos apartamentos, sempre atendendo a uma clientela seleta, formada por executivos europeus. O “faturamento” mensal seria de 14 mil euros, cerca de R$ 84 mil, valores quase impossíveis de serem alcançados no Brasil. Mas tudo não passa de uma grande farsa.
A líder de um dos tentáculos da exploração sexual transnacional é uma ex-garota de programa nascida e criada em Planaltina, região administrativa do DF. A cafetina é radicada na Bélgica há pelo menos três anos e leva uma vida de luxo e ostentação viajando o mundo para os destinos mais paradisíacos do planeta. Em uma apuração exclusiva, a coluna levantou como funcionam as engrenagens que movimentam a rede de tráfico humano.
Vítima escravizada
Como não há investigação formal na polícia, as identidades dos principais envolvidos serão mantidos em sigilo, por enquanto. A coluna conversou com uma modelo que foi escravizada após topar viajar até a Bélgica para integrar o “casting” da cafetina brasileira. O que seria um job vantajoso, como as aliciadas chamam os programas, tornou-se um pesadelo.
A garota de programa custeou as próprias passagens e chegou até a província de Namur dia 4 de dezembro do ano passado. Imaginando faturar alto e atender clientes abastados, ela foi jogada em um sobrado que funcionava como ponto de venda de drogas. “O quarto era sujo, sem segurança e com viciados e traficantes subindo e descendo as escadas durante toda a madrugada”, contou a mulher traficada.
Ela era obrigada a pagar 55o euros semanais pelo aluguel. A cafetina brasileira que comanda o esquema não fornecia comida, preservativos nem água. “Ela controlava anúncios em um site e fazia a negociação direta com os homens, que apareciam a todo instante. Não havia um controle para saber que tipo de pessoa entrava no apartamento. O risco de roubo e estupro era constante”, disse a vítima.
Sexo sem parar
A mulher traficada relatou ter chegado a fazer nove programas em um dia e revelou que precisava atender a todo tipo de homem, muitos drogados ou violentos. “Em uma das vezes, um albanês tentou me estrangular, após ele ejacular em três minutos de relação e ordenar que eu devolvesse o dinheiro que havia sido pago por uma hora de programa”, contou.
A clientela estava longe de ser formada por executivos, e o risco de roubo e estupro era constante, segundo a prostituta. A cafetina brasileira que mantinha as garotas no prédio em que operava a boca de fumo também oferecia a possibilidade de casar as sessões de sexo com a venda de drogas. “Eu não aceitei e passei a sofrer mais”, revelou.
Tabela de preços
A cafetina marcava o maior número de programas possível, para que as escravizadas rendessem pelo menos mil euros por dia. De acordo com a tabela de preços dos programas firmados pelo grupo criminoso, cada prostituta deveria cobrar 100 euros por 30 minutos de sexo. Caso o cliente optasse por 45 minutos, o valor subiria para 120 euros. O atendimento de uma hora completa tinha o custo de 150 euros. Para uma noite inteira, o montante desembolsado seria de até mil euros.
Cardápio do sexo
No entanto, o valor total era retido pela cafetina, que repassava pequenas quantias para as garotas traficadas. “A gente faturava um pouco a mais com a ajuda da chamada caixinha, quando os clientes davam algumas gorjetas após o atendimento”, relata a vítima do esquema.
A mulher só conseguiu fugir do cativeiro 12 dias depois, quando correu pelas ruas de Namur em plena madrugada até chegar a uma estação de trem. Após saltar em Bruxelas, ela embarcou com destino a Roma, na Itália. De lá, conseguiu desembarcar no Brasil depois de quase 24 horas ininterruptas de fuga.
Agora, ela pretende levar o esquema ao conhecimento da Polícia Federal brasileira e também das autoridades belgas.
Leia nesta terça-feira (9/4)
Na segunda matéria da série Traficadas, a coluna Na Mira revelará, nesta terça-feira (9/4), detalhes sobre a base de operações da rede de tráfico de mulheres que opera no Distrito Federal com a ajuda de telefonistas ligadas à cafetina brasiliense radicada na Bélgica.
do Metrópoles - por Carlos Carone, Mirelle Pinheiro
BLOG OXENTE NEWS, 08/04/24

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